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Januar 9, 2012

Cesário Verde – Eu, que sou feio…

Filed under: Cesário Verde,Poésia — admin @ 12:45 pm

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero  estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

  • Sentado à mesa dum café devasso.
    Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
    Nesta Babel tão velha e corruptora,
    Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

  • «Ela aí vem!» disse eu para os demais;
    E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
    O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
    Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, – talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

  • Ia passando, a quatro, o patriarca.
    Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
    Uma turba ruidosa, negra, espessa,
    Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num  pedestal.

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