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Januar 9, 2012

Luis de Camoes

Filed under: Luis de Camões,Poésia — admin @ 10:41 am

Tanto de meu estado me acho incerto,
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quento sinto um desconcerto;
d’ alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta algúem porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.

O soneto gira em torno das contradições do amor. É um poema da primeira fase de Camões. Utiliza a imitação, muito em voga nesta época. Procura utlilizar os mesmos recursos de Petrarca.

Quem quiser ver d’Amor uma excelência
onde sua fineza mais se apura,
atente onde me põe minha ventura,
por ter de minha fé experiência.

Onde lembranças mata a longa ausência,
em temeroso mar, em guerra dura,
ali a saudade está segura,
quando mor risco corre a paciência

Mas ponha-me Fortuna e duro Fado
em nojo, morte, dano e perdição,
ou em sublime e prósepera ventura;

ponha-me, enfim, em baixo ou alto estado;
que até na dura morte me acharão
na língua o nome, n’alma a vista pura.

É a lembrança da mulher amada apesar de estar longe, em guerra dura, no mar.

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que doi e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer;

é um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder;

é querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence o vencedor;
é ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Talvez o mais célebre soneto de Camões. È uma das mais belas formas de cantar o amor.

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de maus olhos te levou.

É feita uma homenagem à amada que acabara de morrer. Assemelha-se a uma prece. Pede-lhe que interceda junto de Deus para levá-lo para junto dela. Tal como o anterior, trata-se de uma soneto extremamente popular.

A formosura desta fresca serra
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do Sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of’rece,
me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo meenoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando,
nas mores alegrias, mor tristeza.

Uma dos poemas que indica a representatividade do humanismo como influência do poeta.

Julga-me toda a gente por perdido
vendo-me, tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado
e dos tratos humanos esquecidos.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido
e quase que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento;
buscam riquezas, honras a outras gente;
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu só, em humilde estado, me contento
de trazer esculpido eternamente
vosso formoso gesto dentro n’alma.

Aqui, o poeta faz referência aos que o julgam louco, por viver afastado dos outros e envolto nos seus pensamentos e nas suas tristezas e desventuras.

Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me algém pergunta quando:
“Não sei, que também fui nisso enganado.”
É tão triste este meu presente estado
que o passado por ledo estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
ostentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas que culpa ponho às esperanças,
Onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

Passa para o soneto a tristeza do desengano. Trata o seu desengano, para depois aproveitar para falar do desengano absoluto, do mundo.

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura prisão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dela aventuro.

Conta-nos o motivo da sua tristeza Está preso de amor, mas também por amor. É com tristeza que faz uma evocação das alegrias passadas.
Lembrança, que lembrais meu bem passado
para que sinta mais o mal presente:
deixai-me, se quereis, viver contente,
não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
viver, como se vê, tão descontente,
venha, se vier, o bem por acidente,
e dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito melhor é perder a vida,
perdendo-se as lembranças da memória,
pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assim que nada perde quem perdida
a esperança traz de sua glória,
se esta vida há-de ser sempre em tormento.

Camões mostra que o seu sofrimento aumenta através das lembranças da felicidade passada. Pede que a  saudade o deixe.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança
e do bem – se algum houve – as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.

Refere as permanentes mudanças que o mudo sofre. No entanto, só para ele não há mudança. O sofrimento não acaba.

Oh! Como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho se falece,
mil vezes caio, e perco confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.

O poeta sente que se vai aproximando, cansado, do fim de uma vida que ele sabe ter sido vivivda em vão, no desengano.

 

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