Mr.J0k3r Mr.J0k3r

Januar 9, 2012

Miguel Torga – Segredo

Filed under: Miguel Torga,Poésia — admin @ 12:53 pm

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.


Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…

Miguel Torga – Brasil

Filed under: Miguel Torga,Poésia — admin @ 12:52 pm

Pátria de emigração.
É num poema que te posso ter…
A terra – possessiva inspiração;
E os rios – como versos a correr.

Achada na longínqua meninice,
Perdida na perdida juventude,
Guardei-te como podia:
na doce quietude
Da força represada da poesia.

E assim consigo ver-te
Como te sinto:
Na doirada moldura de lembrança,
O retrato da pura imensidade
A que dei a possível semelhança
Com palavras e rimas de saudade.

Miguel Torga – Ariane

Filed under: Miguel Torga,Poésia — admin @ 12:51 pm

Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades…
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades…

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

Frederico Valério – Só à noitinha

Filed under: Frederico Valério,Poésia — admin @ 12:48 pm

Tive-lhe amor
Gemi de dor
De dor violenta
Chorei sofri
E até por si
Fui ciumenta
Mas todo o mal
Tem um final
Passa depressa
E hoje você
Não sei porquê
Já não me interessa

Bendita a hora
Que eu esqueci
Por ser ingrato
E deitei fora
As cinzas do seu retrato
Desde esse dia
Sou feliz sinceramente
Tenho alegria
P’ra cantar e andar contente
Só à noitinha
Quando me chega a saudade
Choro sózinha
P’ra chorar mais à vontade

Paulino António Cabral de Vasconselos – Amor é um arder que se não sente

Filed under: Paulino António Cabral de Vasconselos,Poésia — admin @ 12:47 pm

Amor é um arder que se não sente;
É febre, que no peito faz secura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.

Cesário Verde – Eu, que sou feio…

Filed under: Cesário Verde,Poésia — admin @ 12:45 pm

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero  estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

  • Sentado à mesa dum café devasso.
    Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
    Nesta Babel tão velha e corruptora,
    Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

  • «Ela aí vem!» disse eu para os demais;
    E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
    O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
    Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, – talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

  • Ia passando, a quatro, o patriarca.
    Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
    Uma turba ruidosa, negra, espessa,
    Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num  pedestal.

Cesário Verde – Contrariedades

Filed under: Cesário Verde,Poésia — admin @ 12:42 pm
  • Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
    Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
    Incrível! Já fumei três maços de cigarros
    Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

  • Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
    Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
    Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
    E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas…

  • O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
    Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
    Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
    Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

  • A crítica segundo o método de Taine
    Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
    Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
    Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

  • Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
    Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
    Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

  • Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
    Obtém dinheiro, arranja a sua “coterie”;
    Ea mim, não há questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

A adulaçãao repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos…

  • E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
    Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
    Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

  • Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
    Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
    Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a “réclame”, a intriga, o anúncio, a “blague”,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras…

  • E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
    A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
    Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
    Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde – Lúbrica

Filed under: Cesário Verde,Poésia — admin @ 12:39 pm

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!

 

Cesário Verde – Manias!

Filed under: Cesário Verde,Poésia — admin @ 12:37 pm

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada, –
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

Cesário Verde – O Sentimento dum Ocidental

Filed under: Cesário Verde,Poésia — admin @ 12:35 pm

          1. Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

  • O céu parece baixo e de neblina,
    O gás extravasado enjoa-me, perturba;
    E os edifícios, com as chaminés, e a turba
    Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

  • Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
    As edificações somente emadeiradas:
    Como morcegos, ao cair das badaladas,
    Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

  • E evoco, então, as crónicas navais:
    Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
    Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
    Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

  • Num trem de praça arengam dois dentistas;
    Um trôpego arlequim braceja numas andas;
    Os querubins do lar flutuam nas varandas;
    Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

  • Vêm sacudindo as ancas opulentas!
    Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
    E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
    Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

              
         2. Noite Fechada

Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <<dom>>!

  • E eu desconfio, até, de um aneurisma
    Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
    À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
    Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

  • Duas igrejas, num saudoso largo,
    Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
    Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
    Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

  • Mas, num recinto público e vulgar,
    Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
    Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
    Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

  • Partem patrulhas de cavalaria
    Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
    Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
    Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

  • E mais: as costureiras, as floristas
    Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
    Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
    E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

           
            3.  Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

  • Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
    Ver círios laterais, ver filas de capelas,
    Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
    Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

  • Num cutileiro, de avental, ao torno,
    Um forjador maneja um malho, rubramente;
    E de uma padaria exala-se, inda quente,
    Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

  • Longas descidas! Não poder pintar
    Com versos magistrais, salubres e sinceros,
    A esguia difusão dos vossos reverberos,
    E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

  • E aquela velha, de bandós! Por vezes,
    A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
    Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
    Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

  • Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
    Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
    Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
    Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

<<Dó da miséria!… Compaixão de mim!…>>
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

       
          4. Horas mortas

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

  • Por baixo, que portões! Que arruamentos!
    Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
    Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
    E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

  • Se eu não morresse, nunca! E eternamente
    Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
    Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
    Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

  • Ah! Como a raça ruiva do porvir,
    E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
    Nós vamos explorar todos os continentes
    E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!…
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

  • E nestes nebulosos corredores
    Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
    Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
    Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

  • E os guardas, que revistam as escadas,
    Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
    Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
    Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

Older Posts »

Powered by WordPress